segunda-feira, 30 de junho de 2008

OS TRISTES

CRÔNICAS&CONTOS: COM A SUA LICENÇA

- Vou baixar um decreto para a minha vida:
.
- Vou excluir gente triste da minha convivência!
- Eu quero distância de gente triste.
- Vou deixar os tristes com a sua tristeza.
- Os tristes com a sua solidão.
- Os tristes com as suas manias de entristecer as tardes... e os amanheceres.

- Gente triste é como erva daninha: onde nasce toma conta de tudo, se sobressai com a sua feiúra e o seu poder de destruir os momentos inesquecíveis.

- Para os tristes a vida é só dificuldade:
- É doença.
- Fracasso.
- É não ter sentido.
- É todos os dias serem cinza.
- Os tristes não enxergam o sol.
- A amor é um fardo.
- A música, tortura.
- O dia-a-dia impossível.
- Os tristes vivem nas cavernas escuras das suas infâncias reprimidas.
- Daquela família triste.
- Aquelas regras tristes.
- Aquele não poder nunca.
- Aquele não sorrir para sempre.

- Os tristes não sorriem; às vezes apenas riem por conveniência ou por estarem nervosos.

- São críticos ferozes "da alegria", "dos alegres", "dos fúteis", "destas pessoas que vivem rindo", "destas festas", "destes cantos sem motivos", "destas pessoas que vivem a vida de maneira irresponsável", "dos sem-vergonhas".

- Os tristes são um fardo.
.
- É pesado conviver com os tristes.

- Os tristes deveriam fazer um favor a si mesmo e aos outros.
.
- Deveriam ficar reclusos na sua solidão.
.
- Não deveriam espalhar voluntariamente sua tristeza para a vida.

- Ser triste é triste.

- Exclua os tristes da sua vida.
- Eles nos fazem mal.
- Eles enxergam a vida de uma maneira cruel.
- Não existe vida boa nem gente boa.
- Tudo é feio e tem um motivo sórdido para existir.
- Vivem num mundo escuro.
- Não conhecem a beleza.
- Os tristes são seres que transitam entre a vida e a morte.
- Entre a luz e as trevas.
- Entre você e a felicidade.
- Os tristes não amam, odeiam.
- Os tristes são passionais.
- Têm as asas de cera.
- O coração de gelo.

- Os tristes nos deixam tristes.
.
- E tristeza só é bom quando temos um motivo muito triste para ficarmos tristes.

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

domingo, 29 de junho de 2008

MEU CANTO, AMADA...

POESIA: O INVENTÁRIO DAS ROTAS

Meu canto, amada,

passeia pela cidade sem alma
e descansa no porto.

A fome, embrutecida mulher,
discursa calma na periferia do porto
e espalha com pressa
sua doce mentira.

O trigo não alimenta,
ele abastece de ouro o estômago dos navios
e derrama o suor salgado do homem
no oceano de sal.

Ao longe, amada,
os guindastes transportam
o sofrimento humano
em pesadas cargas.

Os navios, criaturas pré-históricas,
chegam e partem
trazendo e levando em cada saco,
em cada container,
um pedaço de alma,
um pedaço de corpo.

E ninguém se importa.

Ninguém percebe o sofrimento duro
que os navios transportam.

Os homens procuram comida.
(uns nos bares, outros nos lixos)
e comem suas feridas estampadas no bife
e no pão amanhecido.

Estou apreensivo, amada,
amargurado e pensativo,
sentado no cais infinito.

Não penso em navios,
nem em trigo
nem em feridas.

Penso na alma dos homens,
suas vidas tristes,
seus olhos sem ritmo,
seus corpos anfíbios.

Penso neles, amada,
e no espelho das águas,
à beira do cais,
sou um deles
a vigiar navios.

Ah, amada,
como sou patético
a contar navios e navios
de sofrimento humano,
como quem conta estrelas.

E o que importa isso?
Nada os detém.
Nada os intercepta.

Longe, agora pequeninos,
eles avançam nas águas
carregados de dores
e sem qualquer importância
caem um a um
no abismo azul e profundo
do horizonte sem fim.
(Santos/Sp-29Junho1996/13:10hs/Sábado)


(Fonte: Poema - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

sábado, 28 de junho de 2008

ERISÔNIA MARILYN

ELA&EU

- Podia jurar que era Erisônia Marilyn que estava aos beijos na esquina da boate.

- Alguma coisa doeu!

- Entrou no primeiro bar que encontrou e bebeu até de madrugada.

- Alma lavada, saiu pela rua cantarolando El Dia Que Me Quieras.

- Ao longe o galo soltou a sua risada de deboche.

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O PINTA-BRAVA

CRÔNICAS&CONTOS: COM A SUA LICENÇA

- Outro dia eu estava em um forró, numa barraca de praia.

- Um grupo executando um forró pé-de-serra de boa estirpe.

- Estava olhando o sanfoneiro - forrozeiro nato - e me lembrei de um falar que existia em Minhas Gerais nos meus tempos de criança:

- Fulano é Pinta-Brava!

- Comentei com Mél: coitada da mulher deste sanfoneiro, o sujeito é Pinta-Brava! Ele pertence ao forró.

- É só olhar:
- O sujeito é um condor sobrevoando as montanhas.
- Um búfalo nas pradarias do velho oeste americano.
- Um tubarão cortando as águas do oceano.
- Um carioca assistindo a um FlaFlu.
- Um brasileiro que ganhou a mega-sena.
- É um homem livre.

- O gingado do corpo, o manuseio da sanfona, a voz, o sorriso, a simpatia nata, o jeito com as mulheres, o repertório colocam o sujeito numa noutra esfera.

- Não é um sujeito comum.
- Não nasceu para fazer contas em bancos.
- Usar a picareta na rua.
- A enxada na roça.
- A caneta no escritório.
- O bisturi no hospital.
- A voz na tribuna.
- Não nasceu para fabricar bens.

- Nasceu para tocar sanfona.
- É um xifópago.
- Nasceu grudado com ela.
- Nasceu para fabricar sonhos.

- São carne&unha.
- Romeu&Julieta.
- Tristão&Isolda.
- Marco Antônio&Cleópatra.
- Mar&horizonte.

- É um sujeito fora das leis do universo.
- Não é pobre nem rico.
- É apenas um sujeito com o seu ritmo.
- Com a sua música.
- A sua alma despojada de tristeza.

- Vive acima dos vis mortais que - sem importar a idade - encantados com a sua magia dançam, cantam, pulam e se rendem aos encantos de um homem que nasceu para sublimar.

- Domingo eu vou de novo.

- Quero me render aos encantos do Pinta-Brava.

- E reencontrar o meu ritmo - que há muito tempo perdi!

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O MAR NÃO SATISFAZ AS AVENTURAS...

POESIA: O INVENTÁRIO DAS ROTAS

O mar não satisfaz as aventuras

nem a ventura de cavalgar
pelo seu dorso.

Preciso mais,
talvez dez mares acorrentados
aos meus pés
em silêncio
sem gaivotas, sem marés.

Eu quero muito
estou tão vago
tão vazio e tão profundo
que o eco da memória
me assusta.

Eu quero mares
ou estrelas, ou desertos
(desertos não!)
que estou pleno de aridez.

Eu quero muito
muito mesmo desta vida
eu quero tudo que preencha almas vazias
eu quero cosmos
quero sóis
quero infinitos
eu quero amores
quero ódios
violências
mas quero algo em que acredite
e me dê forças
pra acreditar que as aventuras não morreram
e que a ventura de viver não é só um fardo
que carrego pelas tardes feito o asno
que não percebe que sua carga é impossível.
(Santos/Sp-05:09hs/Terça-feira)


(Fonte: Poema - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O PÁSSARO

CRÔNICAS&CONTOS: COM A SUA LICENÇA

- O Pássaro estava lá - no alto - planando - pipa de menino que sonha um dia ter asas.

- Majestoso, enorme, imponente - quase que parado no ar sobre a praia do Tambaú.

- Observava.

- Com sua magnitude me observava.

- Eu também o observava.

- Um acompanhava o outro: ele com as asas - eu com minhas raízes.

- Observei que a única diferença entre ele e eu - além da sua beleza, do seu senso de liberdade e da sua leveza era a certeza de que todos os horizontes do mundo são os seus alvos.

- Aqui embaixo mal vejo os horizontes e tenho a minha vida presa às questões menores que nada têm a ver com beleza, liberdade, leveza e muito menos com certeza em relação a alguma coisa.

- Ele, em sua plenitude, é apenas um Pássaro; eu, na minha pequenez, sou apenas um homem... um Pássaro ao contrário.

- Nasci com o dom das asas, mas os pesos da vida plantaram os meus pés no chão - e as raízes nasceram.

- As asas enfraqueceram e hoje construo máquinas para voar.

- E íamos pela praia.

- No que pensaria o Pássaro?

- Creio que só me admirava tomado de profunda compaixão.

- Um ser tão iluminado deve ser capaz de humana humanidade.

- Eu o observava.

- De repente acho que ele se cansou de mim.

- Acho que percebeu que eu não valia a pena.

- Voou mais baixo, me encarou e num vôo rápido, rasante, disparou como uma flecha rumo ao horizonte azul do mar de João Pessoa.

- Eu fiquei ali - parado - frustrado, com dó de mim mesmo.

- Fiquei olhando sua trajetória até que ele rasgou a parede do horizonte e desapareceu no meio da grandeza do mar.

- Ali sozinho senti como sou nada diante da grandeza infinita das criaturas aladas.

- Das criaturas livres!

- Dos seres maiores!

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB

terça-feira, 24 de junho de 2008

AMORA PÂMELA

ELA&EU

- Ah, Amora Pâmela, sempre fui apaixonado pela paixão!

- Não tenho 1/2 termo, ou pulo de cabeça no abismo inesgotável da loucura, ou bebo até cair de 4 e tento me matar com o sofrimento dos que não têm no peito a fonte do fogo da paixão.

- Por Anaximandra Nicole, minha 1ª paixão, eu viajei pelas estrelas.

- Por Fidalguina Amorosa, minha... não sei que paixão, eu babei feito cachorro louco.

- Por Austriquiniana Margareth, eu perdi o sentimento da leveza e a noção de livre-arbítrio.

- Por você, Amora Pâmela, eu viajei pelas estrelas, babei feito cachorro louco, perdi o sentimento da leveza e a noção de livre-arbítrio e outras coisas mais.

- Por você eu me mudei da vida, fechei os olhos para os horizontes e apaguei no peito a fonte de todas as minhas outras futuras paixões... e me acabei!

- De paixão, Amora, na minha vida só sobrou você... e estou apaixonadamente apaixonado pela paixão que ainda vai me matar.

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB