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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Congelando a cena

Existe um dia que você tem que parar.

Parar tudo!

Congelar a vida... como se faz no cinema.

E ficar fora da cena observando você congelado na cena.

E olhar a sua volta... na cena.

Pensar, reavaliar e como se fosse um jogo de xadrez começar a mexer com as peças da cena.

Este amigo vem pra cá.

Meu filho vai pra lá.

Minha mulher fica aqui.

Boto este emprego aqui.

Mando esse pra lá.

O cachorro ali.

A casa acolá.

Os meus conceitos aqui.

Não ficou satisfeito?

Mexa de novo!

Mude a sua família congelada de rua.

De cidade.

De país.

Bata na porta daquele outro emprego.

Troque de companheiro/companheira.

Deixe o cabelo crescer.

Aprenda a tocar violão.

Vá andar pelo mundo.

Vá organizando a cena da maneira que você achar melhor pra sua vida.

Ou não organize nada!

Vire tudo de cabeça pra baixo!

Bagunce tudo!

Embaralhe!

E comece de novo!

Quantas vezes forem necessárias.

Só assim você dará alguma chance real de um pouco de felicidade pra sua vida.

E dormirá melhor.

E se sairá melhor.

Eu tô tentando.

Todos os dias eu me congelo.

E tento.

E reavalio a cena.

E vou começar a mexer as peças.

A primeira coisa que eu vou fazer é rasgar este post besta.

Que é o que eu faço de melhor na minha vida besta.

De besta mesmo!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

HÁ QUANTO TEMPO

- Há quanto tempo você não tira um dia inteirinho só pra você?

- Há quanto tempo você não caminha pelo calçadão da praia, ou pela calçada da sua rua, ou pela praça do seu bairro?

- Há quanto tempo você não entra num cinema, num teatro, num campo de futebol... num restaurante onde se possa comer tranqüilo?

- Há quanto tempo você não visita o seu amigo, não fala com a sua irmã, não conversa com o seu filho, não abraça a sua cara metade?

- Há quanto tempo você não pratica um esporte, não canta uma canção, não lê um bom livro?

- Há quanto tempo você não dá uma boa risada, não dá um sorriso bonito, não conta uma piada?

- Há quanto tempo você endureceu?
.
- Há quanto tempo você desistiu de tudo?

- Há quanto tempo você é apenas um homem que acabou com o seu tempo e não tem mais tempo pra ter tempo, não tem mais tempo pra mais nada que não seja ter tempo para sobreviver?

- Há quanto tempo você é apenas uma metáfora de homem... um projeto de ser humano?

- Há quanto tempo você morreu e se esqueceu de deitar?

- Há quanto tempo a sua alma se fundiu com o corpo amorfo do sistema?

- Há quanto tempo você espera o Juízo Final?

- Há quanto tempo?
.
TõeRoberto-05:01-post in jampa/pb

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A REDENÇÃO

CRÔNICAS&CONTOS: SUA ALMA, SUA PALMA

- Quando Edircristólio entrou no cinema, assustou-se.

- Apertou, com força, a Bíblia que trazia embaixo do braço.

- Não sabia que o filme era de sacanagem.

- Entrou no cinema apenas para ficar um pouco sozinho, em silêncio.

- Agora, parado no meio do corredor, apenas umas 05 pessoas na sala, Edircristólio olha para a tela.

- A morena tomava banho.

- A água escorria pelos cabelos, pelos lábios, pelos seios generosos, descia pelo umbigo, desaparecia no poço peludo do meio das pernas, reaparecia nas coxas, nos joelhos, nos tornozelos e nos pés.

- Edircristólio não sentou, ficou ali:

- Parado.

- Boquiaberto.

- Paralisado.

- Pasmo!

- A morena se contorcia, passava as mãos pelos lábios, descia para os seios, circulava os mamilos, descia pelo ventre, parava no meio das pernas, fazia movimentos, gemia, urrava, sussurrava, balbuciava, se encolhia e se enrolava toda num orgasmo sem fim.

- Edircristólio apertou, com força, a Bíblia embaixo do braço.

- Não se movimentou.

- Uma sensação estranha no peito.

- Um calor.

- Não conseguia tirar os olhos da tela, não conseguia deixar de olhar a morena.

- Quanto mais olhava, mais apertava a Bíblia.

- De repente alguma coisa, animal incontrolável, começou a criar vida no meio das suas pernas.

- Enfiou a mão no bolso e tentou disfarçar, tentou segurar dentro da cueca a vergonha que se manifestava.

- 38 anos, solteiro, virgem em todos os sentidos, mais da metade da vida dedicada ao Senhor.

- O calor subia pelo corpo.

- Não conseguia domar a fera.

- Quanto mais segurava, quanto mais tentava, mais rebelde o animal ficava.

- A cabeça girava.

- A vista embaralhava.

- Não agüentou ficar de pé.

- Sentou-se, colocou a Bíblia na cadeira ao lado, e sem saber direito o que fazia - na base do instinto - pegou o pau, tirou para fora e bateu a única e maior punheta da sua vida.

- E se redimiu de todos os seus pecados.

- E botou em dias todos os maus pensamentos.

- E, sem saber, ficou bem mais próximo do Deus que tanto o reprimira por todos estes anos.

- Saiu do cinema - deixou a Bíblia em cima da cadeira - entrou no táxi e pediu para o motorista o deixar no bordel mais próximo.

- E deu um sorriso de alegria.

- E suspirou fundo...

- E os anjos - os de verdade - bateram palmas por mais uma alma ter sido tirada das garras da ignorância.

- Dos braços da repressão criminosa dos falsos profetas.

- Das igrejas que renegam os dons maravilhosos com que Deus presenteou os seres humanos.

- E, no cinema, a morena...

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
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