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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Reminiscências

Éramos grandes naquela madrugada sem nome.
A garoa cantava firme sua canção de molhar.
Uma luz apática, quase morta,
nascia de nossos dois pares de olhos negros
de noite vazia
de noite sem o bocejo luminoso de estrelas
sem despontar de lua.

Éramos dois naquela noite vampiresca
naquela noite desprovida de expectativas.
Foi quando a carruagem passou
trazendo na boleia colorida
o fantasma de Marta
há muito tempo adormecida.

Veio-nos Guaranésia:
o pique, machucados;
o mocinho, esconderijos;
a cabra-cega, os postes.

Somos três marinheiros - agora dois!
Que vieram fazer?
- Combater!
Combate um pouquinho pra eu ver?

E combatíamos naquela noite sombria
sem elos de presente
sem necessidade de futuro
o que até aquela data
não importava pra nada.

O poeta, na noite, só amava a poesia...
amava o poema
e deliciava-se com suas perfurações terrenas
a embrenhar-se pelos corações solitários.

E depois a luz se fez
e nada se fez de nada
e nada se transformou em nada
e tudo continuou na vida
a relembrar nossas lembranças
da Guaranésia antiga
das nossas vidas antigas
naquele tempo esquecidos.

E choramos baixinho
na manhã que se fazia
como dois bichinhos perdidos
no tempo das nossas vidas.
(Cássia/mg)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O MEU AMIGO ADRIANO - OU GATÃO

CRÔNICAS&CONTOS: SUA ALMA, SUA PALMA

- Devo ao meu amigo Gatão muito do que sou.

- Abriu-me as portas do mundo.

- Estudantes e futebolistas que éramos, fizemos sólida amizade.

- Ele, filho de comerciantes; eu, de operários.

- Crianças éramos!

- E juntos quebramos velhas regras do conservador Colégio Estadual Dona Alice Autran Dourado - Guaranésia, MG; mas não vou falar disso.

- E também quebramos regras das comunidades de italianos, espanhóis e portugueses - que não permitiam muito abertamente a relação de amizade entre pessoas remediadas - classe média, antigamente - e pobres - miseráveis, hoje.

- A amizade sobreviveu.

- Abriu-nos o espaço e fomos trabalhar em São Paulo.

- Lá iniciamos nossa caminhada rumo à vida.

- Ficamos desempregados, procuramos emprego a pé, trabalhamos em bancos, em serviços temporários, demos cano em ônibus, passamos fome, comemos de marmita, catamos bitucas de cigarro nas ruas, misturamos concreto, batemos lajes e começamos a curtir o nosso couro para as selas que carregaríamos pela vida afora.

- Infelizmente, aos 43 anos meu amigo Gatão se foi; eu fiquei - e, anos depois, aqui estou relembrando, neste momento, as nossas dezenas de histórias.

- Entrei no mundo pelas suas mãos.

- E até parte do meu pseudônimo - Tõe - veio do meu amigo Gatão.

- Foi a única pessoa que conheci que sempre me chamou de Tõe - daí o TõeRoberto, hoje.

- Saudades do meu amigo Gatão.

- Longos anos se passaram desde a sua partida e, hoje, me lembrei do seu sorriso - era bonachão - e ouvi a voz do menino dos nosso 15 anos.

- Passa a bola, Tõe!, passa a bola!!!

- Um abraço onde você estiver, amigo Gatão!

- E para você a música Rock And Roll Lullaby - de B. J. Thomas que você tanta gostava.

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB