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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Os meninos da Rua Santa Bárbara

A todos os meus amigos - vivos e mortos - da rua Santa Bárbara, em Guaranésia, Minas Gerais.

Às vezes, do nada, algo nos atinge no coração.

E rimos, choramos, viajamos pelo tempo e encontramos a nossa criança, a nossa infância perdida lá no fundo da memória.

Ontem, procurando uma coisa, achei outra.

Um poema.

Escrito em 07out1981, data em que passei por essa experiência de algo nos atingir o coração.

Um dia, lá atrás, em que eu me lembrei da minha infância e escrevi o poema.

Hoje, ao encontrá-lo, passei pela mesma sensação daquela data em que foi criado.

E tenho a impressão pelo meu estado - riso, choro, alegria, viagem - que encontrei novamente a minha criança perdida que estava por ai, desamparada.

Acompanhe:

No vai e vem dos navios
de casca de coco e de nozes
no galopar dos cavalos
de cabos de enxada e vassoura
no ronco mortal dos motores
dos carros de tábua e de lata
no brilho forte dos olhos
heróis de ouro e de prata
na luta calma das ruas
o bem derrotando o mal
descobri que a vida era boa
e a morte cruel e fatal.

Descobri que a gente era livre
a cada nascer da manhã
e que o sonho de quem resistia
à febre do mundo em vão
era ter um campo de vidro
com o brilho ao alcance das mãos
era ter um sonho escondido
nos rios do coração.

O forte sol que se abria
na rua, com emoção
marcava a hora da busca
do homem da perna de pau
porém, cuidado era tudo
havia perigo no ar
havia muitos bandidos
que infestavam os quintais
apaches, soldados, piratas
duendes, demônios, marcianos
e monstros de além-mar.

Descobri que o medo existia
e que Deus era o susto maior
descobri que a força era fraca
quando se tinha a razão
descobri que o amor era belo
no gesto de se dar e mão
descobri que meu pai era tolo
por trabalhar sem paixão
descobri que um sonho era pouco
pra quem tinha um coração.

Ainda trago nos olhos
vivência de barro e de chão
batalhas de vida e morte
motivos de festa e emoção
silêncios, ruídos medrosos
no fundo do coração
e o sonho de quem já teve
a vida presa na mão.

Descobri que a vida passa
no dorso de um alazão
que se acabaram os tesouros
piratas de perna de pau
que o medo é coisa boba
que homem não sente não
e que Deus está afogado
na lama de um pantanal
descobri que o amor é duro
pra quem tem um coração
descobri que o tempo é curto
pro bem derrotar o mal
descobri que a rua é a mesma
e eu não mais não.

E ai?

Lembrou-se de alguma coisa?

Pensou um pouquinho na sua criança?

Naquela criança pequenina que dorme profundamente no fundo do seu coração.

Legal, não?

Sempre gosto dessas experiências.

Elas têm um gosto maravilhoso de vida.

E não têm contraindicação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Eu adulto

Do eu adulto para o eu criança
quero fazer um verso da minha infância.

Vou usar certa discrepância
o rei perde a coroa, o reino, a felicidade
mas não perde a lança.

Eu canto o poema de toda a minha mudança
ergo os olhos, desenhos as imagens
dos risos, dos amores, das danças
depois me encolho, cubro a cabeça
fecho os olhos, choro, sonho,
eu adulto virando criança.

Tenho uma saudade guardada no guarda-roupa
e só a uso quando deito, penso, sonho
quando derramo lágrimas puras
inocentes, sentidas, sem mentiras
porque eu sou um adulto que faz um versol
embrando de todas as andanças
do tempo e do espaço
entre o eu tão homem e o eu tão criança.

.
TõeRoberto-são paulo/sp-05agosto1974

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Moleque

Hoje, 13/09/08, vasculhando uns papéis... daqueles de trocentos anos, deparei com a letra de uma música - O Moleque - que fiz com meu amigo Efraim, de São Paulo, na década de 80.

A música, dele.

A letra, minha.

Pena que eu não tenho como disponibilizar a música no Falas da Boca.

A letra:

Já fui menino, barriguinha de pilão
a cara suja, olhos vivos, pés no chão
bodoque em punho, o sanhaço no mamão
ai, meu Deus, quanta saudade
dorme no meu coração!

Quentei fogueira, rezei terço de São João
tive pereba da cabeça até o dedão
fugi da escola pra pescar peixe chorão
ai, meu Deus, quanta saudade
dorme no meu coração!

Assei batata no borralho do fogão
lidei corote na colheita do feijão
já tive medo de Saci na escuridão
ai, meu Deus, quanta saudade
dorme no meu coração!

Nadei pelado na lagoa do grotão
roubei goiaba na roça do Gué Simão
mas veio a barba, esqueci toda lição
ai, meu Deus, quanta saudade
dorme no meu coração!'

Confesso:

Tive saudades dos tempos em que eu era O Moleque da letra.

Mas isto é outra história!

Hoje, sou apenas um moleque que cresceu, não tenho mais barriguinha de pilão, porque faço exame de fezes a cada 6 meses e não ando mais de pés no chão.

Não tenho mais perebas, nem tenho fogão de lenha, nem sei mais o que é corote, não acredito em Saci, não nado mais pelado e nem roubo mais frutas no quintal de ninguém porque sou um cidadão politicamente correto.

Um chato, pode-se dizer!

Hoje, sou apenas um adulto que, cercado de toda a 'falsa felicidade' que o mundo tenta lhe proporcionar, fica com os olhos molhados ao descobrir, numa letra de música, todo o fantástico e encantado universo com o qual conviveu na infância.

E não quero dizer mais nada!

Que eu estou ficando triste!

Um abraço para meu amigo Efraim que, sinceramente, fez uma melodia maravilhosa, na qual coloquei a letra.

E pelo telefone!

.
TõeRoberto

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

ALEGORÁCIA EDUARDA

Nas suas contas, Alegorácia Eduarda, 1 + 1 são sempre 2!

Nas minhas podem ser 3, ou 4, ou 5 - depende do meu estado de espírito - e não tô nem aí para estas merdas de regras que você colou na porta da geladeira.

Caralho!, que mulhé chata, meu Deus!!!

Você não teve infância? Você não relaxa nunca!

Larga do meu pé!

Vai fazer compras no shopping e deixa eu tomar a minha cervejinha em paz, cacete!!!
.
TõeRoberto-post in jampa/pb

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

TE DIGO...

POESIA: SUÃ/SUÃO - 7 ANOS DE SIM/NÃO

Te digo:

estou triste por mim
estou triste por ti
estou alegre por nós
com esse nó na garganta
essa ruína nos olhos.

Estou cantando meus sonhos
estás cantando teus sonhos
os sonhos às vezes fogem
como notas mal tocadas
os sonhos às vezes gritam
como camelô nas calçadas
os sonhos são brincalhões
como duendes safados
os sonhos são engraçados
como os palhaços da infância.

Os sonhos são alegrias

são ritos
buscas
cansaços
às vezes são praias bonitas
às vezes desertos insondáveis
às vezes choram com a gente
às vezes riem com raiva.

Os sonhos são nossos olhos
telas
luzes
e lágrimas
são aves que se definem
entre o espaço e as águas
são aves que voam e voam
sem ter lugar de pousada
são olhos que chorando molham
com fel e mel
nossa mágoa.
(Recife/Pe-22Maio1985)


(Fonte: Poema - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB