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segunda-feira, 16 de maio de 2011

A manhã que não amanheceu

Hoje de manhã levei o maior susto.

Acordei, levantei, lavei o rosto, abri a janela do quarto e lá não estava: era de manhã, mas o dia não havia amanhecido.

E o pior: o dia não era ontem, nem anteontem, nem hoje... era dia nenhum.

Era um vácuo, um nada abstrato, um não clarear, um não ter sol, num não ventar, um não ter como sair à rua, pegar o ônibus, ir à praia, ir trabalhar.

Era um não-dia, um não-amanhecer, uma não-existência.

Da janela eu observava sem observar o dia que não havia amanhecido.

Liguei o rádio, sem som; liguei a tv, sem imagem; tomei o café, sem gosto; tomei a água gelada, sem gelo, falei comigo mesmo, sem voz; esmurrei a porta, sem dor; tentei sofrer, sem sofrimento; tentei chorar, sem lágrimas.

Nada, a vida naquela manhã não amanhecida era um completo vazio de vida, um completo não existir de existência, um completo não amanhecer de amanhecimento.

Procurei no vazio sem horizontes um sinal de que me indicasse o sonho, o pesadelo metafórico da negação da continuidade da vida.

Nada!

Nem um minúsculo ponto de esperança na tela inexistente da manhã não amanhecida.

E senti sem sentir que eu também não havia amanhecido.

Que me encontrava no limbo entre um momento qualquer da minha existência e a manhã não acontecida.

Que me encontrava na fronteira entre o ser e o não-ser.

Um ser-não-ser metafísico aprisionado na sua própria negação da vida.

Na sua própria atitude de correr atrás do rabo... eternamente.

Sem a menor possibilidade de seguir em frente.

Na turbulência lírica da ausente manhã não amanhecida.

TõeRoberto

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Uma bela manhã

Hoje acordei em paz.

Pulei da cama... abri a janela.

Dei de cara com a cidade amanhecendo.

E a orquestra dos elementos em execução.

Os pássaros são um espetáculo à parte!

Não são como nós!

Sempre dão boas-vindas ao dia!

Um bom humor inquestionável!

Bem-te-vis, pardais, pintassilgos, caga-sebos, coleirinhas, canários, lavadeiras, sabiás, rolinhas, bigodinhos, sanhaços, cambaxirras...

E o sol!

Lerdo, morno... lindo!

Jogava sua luz imparcial sobre as criaturas e a superfície do mar.

E se expandia maravilhoso num feixe de luz.

Que ia da praia até a linha do horizonte longínquo.

Sou suscetível à beleza pura.

Ver o milagre da vida na sua forma mais simples me toca o fundo da alma.

É como uma magia... um toque especial de uma mão que sublima.

Fiquei olhando... sentindo.

Me arrepiei, olhei para a imensidão do mundo e percebi o quanto sou privilegiado.

O quanto sou recompensado.

Só por ter amanhecido com esta manhã já não sou o mesmo.

Só por tê-la visto se despindo para o deleite dos meus olhos já valeu a pena.

E por estar presente eu levanto as mãos.

E agradeço a quem de direito por fazer parte disto.

Por estar feliz!

E por estar vivo!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

TANTO FAZ...

POESIA: SUÃ/SUÃO - 7 ANOS DE SIM/NÃO

Tanto faz
agora que a cidade me estranha
estou certo de que nasci para cantar
estou certo de que meu sonho é o arco-íris
que renasce a cada tarde que eu sonhar.

Estou certo
isto eu digo
estou certo
não há nada que fazer quando eu falar
o meu rumo é o espaço definido
entre o correr o fluir e o voar.

Não importa que as portas vão fechando
quando eu penso em partir
em decolar
o que importa para mim e a minha vida
é construir novas portas pra se entrar.

Estou certo
vou cantando
estou certo
o meu corpo é minha nave
o meu lar
eu não quero destruir as minhas luzes
pelo fato de alguém me pilotar.

Vou cantar

nada impede
vou cantar
estou cansado de ouvir alguém cantar
para a vida de quem quer sonhos precisos
é necessário todo o palco ocupar
senão os cantos que virão pelos ouvidos
serão os cantos
de quem sonha sem sonhar.

Para cantar é necessário cumprir ritos
voar solene sobre o nada
o pó e o grito
do fantasma de sermos todos um calar.

E calar não é nada

não é vida
é simplesmente reduzir-se ao não voar.

E vou voar
vou voando para o alto
e ao sentir que o sonho é infinito
nada mais quero
que manter meu equilíbrio
entre o meu sonho
o meu vôo
e o meu grito
que prenunciam a manhã
que vai raiar.
(São Paulo/Sp-26Abril1985)


(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)

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