Hoje de manhã levei o maior susto.
Acordei, levantei, lavei o rosto, abri a janela do quarto e lá não estava: era de manhã, mas o dia não havia amanhecido.
E o pior: o dia não era ontem, nem anteontem, nem hoje... era dia nenhum.
Era um vácuo, um nada abstrato, um não clarear, um não ter sol, num não ventar, um não ter como sair à rua, pegar o ônibus, ir à praia, ir trabalhar.
Era um não-dia, um não-amanhecer, uma não-existência.
Da janela eu observava sem observar o dia que não havia amanhecido.
Liguei o rádio, sem som; liguei a tv, sem imagem; tomei o café, sem gosto; tomei a água gelada, sem gelo, falei comigo mesmo, sem voz; esmurrei a porta, sem dor; tentei sofrer, sem sofrimento; tentei chorar, sem lágrimas.
Nada, a vida naquela manhã não amanhecida era um completo vazio de vida, um completo não existir de existência, um completo não amanhecer de amanhecimento.
Procurei no vazio sem horizontes um sinal de que me indicasse o sonho, o pesadelo metafórico da negação da continuidade da vida.
Nada!
Nem um minúsculo ponto de esperança na tela inexistente da manhã não amanhecida.
E senti sem sentir que eu também não havia amanhecido.
Que me encontrava no limbo entre um momento qualquer da minha existência e a manhã não acontecida.
Que me encontrava na fronteira entre o ser e o não-ser.
Um ser-não-ser metafísico aprisionado na sua própria negação da vida.
Na sua própria atitude de correr atrás do rabo... eternamente.
Sem a menor possibilidade de seguir em frente.
Na turbulência lírica da ausente manhã não amanhecida.
TõeRoberto

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