segunda-feira, 17 de setembro de 2007

MACEDINHO

CRÔNICAS&CONTOS: SOBRE NÓS&OS OUTROS

- Fui editor do jornal alternativo SOMOV, na cidade de Guaranésia-MG, em 1976.

- Por motivos ideológicos, o jornal só teve 03 edições publicadas.

- Outro dia, relendo a jornal, deparei com uma crônica minha:

- Assim:

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- O meninozinho de carinha suja e olhinhos vivos, filho de D. Madalena Cruz-Credo, chama-se Macedinho e mora lá no fim da periferia da urbanidade dos homens.

- "Um pouquinho de comida! Um pouquinho de!..."

- (Um homem de terno azul-cinzento ficou bravo na minha frente quando moleques tiraram o pão da boca do cachorro da Rua dos Cachorros).

- "Seus moleques!... Capetas!... A prefeitura deveria dar bolas era para vocês!..."

- Macedinho tem, nos bolsos furados, uma broa de fubá que aperta com amor. Na rua, os homens são imponentes; às vezes tomam os pães ou as broas de fubá das mãos e das bocas das crianças indefesas. Como os meninos ao cachorro.

- "Dinheiro prum meio quilo de arroz!..." Deus lhe pague!... Deus lhe..."

- As janelas são um amontoado de barras de ferro quadradas e negras dentro da noite fria.
- Passos corridinhos, em forma de medo, se movimentam no escuro da cidade e se escondem nas sarjetas da noite.

- O homem gordo ronca debaixo de colchas caras.

- Macedinho corre pela noite. Junto dele correm, em silêncio, milhares de olhinhos medrontados,
esfomeados e sufocados por nossa omissão consentida.

- Os homens dormem seus sonos tranqüilos e sonham, noite adentro, que roubam os pães e as broas de fubá da boca dos meninos adormecidos.

- E sorriem absolutos!

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- A crônica foi escrita em 1976 e não envelheceu.

- O Brasil tem um dom: os ricos se movimentam constantemente, enquanto os pobres, maquiados pelas esmolas do governo, não saem dos seus lugares escuros.

- Para ver é só andar pelas ruas e não fechar os olhos.

(Fonte - Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in João Pessoa/PB

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