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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sem pena

Quero um beijo frio que me leve à morte
ao meu destino, a minha sorte
te quero nua, sem desejo próprio
trazendo nos lábios o gosto do ópio.

Quero teu corpo, meu sonho/pesadelo
dentro do meu sono derradeiro
te quero desejosamente angustiada
a gemer, de costas, na cama deitada.

Quero te ter uma noite apenas
depois eu morrerei, mas não tenha pena
quero morrer em teus braços, de febre ardendo
não quero sofrer fora deles, vivendo.

TõeRoberto-são paulo/sp-24dezembro1974

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Depois da minha morte

Depois da minha morte, que uma coisa fique registrada.

Eu sofri em vida.

Sofri os horrores de sentir.

Sentir ao extremo cada momento da minha vida.

E não ter como, não saber como explicitar os meus sentimentos para o mundo.

E tudo ardia.

Uma grande fogueira queimava o meu coração.

E consumia minha alma em segundos.

E eu não conseguia.

Não conseguia colocar pra fora, vomitar mesmo, aquele momento cruel, duro, torturante... sensível.

Eu tentava.

Um lápis, um papel em branco... uma crônica, um poema apático e sem alma.

E vasculhava os vocabulários.

À procura de palavras que pudessem demonstrar o meu sofrer doído.

Nada!

Nenhum dicionário continha as palavras certas para mostrar o meu sentimento para com o mundo.

Um pedreiro sem prumo.

um mecânico sem ferramentas.

Um cirurgião sem bisturi.

Um jogador de futebol sem pernas.

Um político sem a língua.

Um poeta sem os versos.

Um homem sem som.

Um homem amorfo.

Um coração de vulcão.

Uma alma de furacão.

Uma sensibilidade passional.

Apenas um homem...

Que não conseguiu expelir no mundo a sua efervescência lírica.

A sua paixão desenfreada.

O seu sofrimento pleno.

A sua dor de existir.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Contando os dias

Pessoas acham que contar os dias é um sinal de cansaço... de rendição.

Não acho!

Contar os dias também é sinal de plenitude.

É um sinal que valorizamos cada segundo da nossa vida.

Cada respirar!

Cada piscar!

Cada falar!

Cada arrepiar!

Contar os dias é estar vivo!

É não deixar pra amanhã o que se pode fazer hoje.

É fazer hoje o que possivelmente não poderemos fazer amanhã.

A vida é imparcial... de veneta.

Amanhece vivo.

Adormece morto.

Mas de qualquer maneira é a vida... e está viva.

E só morre quando paramos de contar os dias.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Obrório

Obrório sentou-se e ficou ali olhando Bidinha.

Bonita, jovem... uma marca de nascença junto ao olho direito.

Passou a mão pelos cabelos, o dedo indicador nos lábios... um movimento lento e circular.

Pegou, com cuidado, a cabeça e colocou no colo.

Passou a mão direita na testa... depois beijou.

Bidinha parecia dormir.

Debruçou-se sobre ela e a abraçou forte, mas com ternura.

Ficou ali, na penumbra do quarto, num profundo silêncio.

Não mais se mexia.

O abraço mais longo da sua vida.

O sentimento mais visceral.

01 dia, 02 dias, 03 dias... ali!

Nem água nem comida.

Necessidades ali mesmo, do jeito que estava.

Telefone tocava, campainha tocava... nada!

04 dias!

Abraçado.

No 5º dia saiu do abraço.

Deitou-se lado a lado com Bidinha.

Fechou os olhos, balbuciou silenciosamente uma das poucas orações que conhecia.

Duas lágrimas: uma em cada olho.

Pegou a mão de Bidinha e segurou forte.

A noite começou a invadir sua alma.

Mas ainda ouviu quando, num estrondo, a porta da rua veio abaixo.

Ainda ouviu quando invadiram o quarto.

Ainda ouviu quando disseram: Que horror! Que tragédia! Bidinha sabia que isto acabaria acontecendo!

Ainda sentiu quando enfiaram a agulha no seu braço e o levantaram da cama.

Suspirou... apenas um suspiro, mais nada!

E ouviu, longe, quando alguém se apiedou da sua alma.

.
TõeRoberto

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CÉU&INFERNO

CRÔNICAS&CONTOS: SUA ALMA, SUA PALMA

- O meu amigo Dedé - quando falava de morte - sempre dizia:

- Céu?, puta que o pariu com o céu! Lá só deve ter velho, menino, padre e político - não são todos santos?

- Mulher gostosa e manguaceiro? Tá tudo no inferno!

- E continuava:

- O céu deve ser um saco: beata rezando, menino chorando - cagando - padre dando sermão e político fazendo discurso.

- Sem boteco, sem zona, sem samba!

- Deus não entende porra nenhuma de curtir a vida.

- O capeta é o homem!

- Inferninhos, puteiros, botecos, ressacas eternas.

- O capeta quer que a gente peque - e muito!

- Tô com meu amigo Dedé.

- Eu quero viver a eternidade pecando.

- Eu quero viver no inferno.

- Ao lado da Sharon Stone, da Marilyn Monroe, da Camila Pitanga.

- Ao lado do Zeca Pagodinho, do Vinicius e do Cartola.

- Ao lado de tudo que é mulher gostosa e sambista sem-vergonha deste mundo - que, segundo dizem, são de Deus.

- Axé, meu amigo Dedé!

- Que ainda dizia: o céu para ser um paraíso tinha que ser um grande boteco, que não fechasse nunca; a mulher - ou ditadura doméstica - nunca fosse atrás; a cachaça não desse ressaca; não precisasse pagar a conta; onde não existisse segunda-feira... nem patrão.

- Passo a régua e não fecho a conta.

- Estou contigo e não abro, meu amigo Dedé!

- Um grande abraço onde você estiver.

- Com certeza, tomando uma grande caipirinha, fumando um cigarrinho, metendo o pau no governo... e ouvindo Bandeira Branca.

(Fonte: Texto - Autoria de TõeRoberto)
Post in Jampa/PB