segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Contando os dias

Pessoas acham que contar os dias é um sinal de cansaço... de rendição.

Não acho!

Contar os dias também é sinal de plenitude.

É um sinal que valorizamos cada segundo da nossa vida.

Cada respirar!

Cada piscar!

Cada falar!

Cada arrepiar!

Contar os dias é estar vivo!

É não deixar pra amanhã o que se pode fazer hoje.

É fazer hoje o que possivelmente não poderemos fazer amanhã.

A vida é imparcial... de veneta.

Amanhece vivo.

Adormece morto.

Mas de qualquer maneira é a vida... e está viva.

E só morre quando paramos de contar os dias.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Os meninos da Rua Santa Bárbara

A todos os meus amigos - vivos e mortos - da rua Santa Bárbara, em Guaranésia, Minas Gerais.

Às vezes, do nada, algo nos atinge no coração.

E rimos, choramos, viajamos pelo tempo e encontramos a nossa criança, a nossa infância perdida lá no fundo da memória.

Ontem, procurando uma coisa, achei outra.

Um poema.

Escrito em 07out1981, data em que passei por essa experiência de algo nos atingir o coração.

Um dia, lá atrás, em que eu me lembrei da minha infância e escrevi o poema.

Hoje, ao encontrá-lo, passei pela mesma sensação daquela data em que foi criado.

E tenho a impressão pelo meu estado - riso, choro, alegria, viagem - que encontrei novamente a minha criança perdida que estava por ai, desamparada.

Acompanhe:

No vai e vem dos navios
de casca de coco e de nozes
no galopar dos cavalos
de cabos de enxada e vassoura
no ronco mortal dos motores
dos carros de tábua e de lata
no brilho forte dos olhos
heróis de ouro e de prata
na luta calma das ruas
o bem derrotando o mal
descobri que a vida era boa
e a morte cruel e fatal.

Descobri que a gente era livre
a cada nascer da manhã
e que o sonho de quem resistia
à febre do mundo em vão
era ter um campo de vidro
com o brilho ao alcance das mãos
era ter um sonho escondido
nos rios do coração.

O forte sol que se abria
na rua, com emoção
marcava a hora da busca
do homem da perna de pau
porém, cuidado era tudo
havia perigo no ar
havia muitos bandidos
que infestavam os quintais
apaches, soldados, piratas
duendes, demônios, marcianos
e monstros de além-mar.

Descobri que o medo existia
e que Deus era o susto maior
descobri que a força era fraca
quando se tinha a razão
descobri que o amor era belo
no gesto de se dar e mão
descobri que meu pai era tolo
por trabalhar sem paixão
descobri que um sonho era pouco
pra quem tinha um coração.

Ainda trago nos olhos
vivência de barro e de chão
batalhas de vida e morte
motivos de festa e emoção
silêncios, ruídos medrosos
no fundo do coração
e o sonho de quem já teve
a vida presa na mão.

Descobri que a vida passa
no dorso de um alazão
que se acabaram os tesouros
piratas de perna de pau
que o medo é coisa boba
que homem não sente não
e que Deus está afogado
na lama de um pantanal
descobri que o amor é duro
pra quem tem um coração
descobri que o tempo é curto
pro bem derrotar o mal
descobri que a rua é a mesma
e eu não mais não.

E ai?

Lembrou-se de alguma coisa?

Pensou um pouquinho na sua criança?

Naquela criança pequenina que dorme profundamente no fundo do seu coração.

Legal, não?

Sempre gosto dessas experiências.

Elas têm um gosto maravilhoso de vida.

E não têm contraindicação.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Procura

No silêncio da noite procuro um rosto.

Um rosto qualquer!

Real ou inventado, não importa!

Um rosto amigo!

Um rosto que sorria, acredite na vida.

E me sussurre não segredos, mas verdades abertas.

Não certezas abstratas, mas realidades concretas.

Eu procuro um rosto.

Todas as noites.

Nas ruas.

Nos meus sonhos.

E ele é uma névoa.

Não se define de fato.

É só um projeto... um vulto... uma possibilidade.

E me deixa agoniado.

Pensando que a vida se vai... cansada!

Eu procuro um rosto.

A quem possa interessar que o desenhe.

Na parede dos meus olhos atentos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mulher ao espelho

Gineilda terminou de passar o batom - vermelho - levantou-se da banqueta e se olhou no espelho... nua.

Ficou ali se admirando.

Passou as mãos nos cabelos.

Tocou o nariz.

As orelhas.

Tocou levemente o queixo à procura de pelos.

Imaginou a medalhinha de prata - Nossa Senhora dos Aflitos - no pescoço.

Desceu a mão.

Tocou os seios - por inteiros - suavemente, começando pela base até as aréolas, os mamilos.

Lá demorou.

Com o indicador fez movimentos circulares... fechou os olhos e sentiu um arrepio, maravilhoso, que começou nos pés e terminou nos cabelos.

Tocou a barriga.

Enfiou o mindinho no umbigo e ficou ali se acariciando.

E seguiu.

A mão correu pelo ventre.

Pensou... parou.

Fechou e abriu a boca e beijou o espelho.

Virou-se 1/2 que de lado, ficou na ponta dos pés e apalpou as nádegas.

Apertou: durinhas!

Acariciou-se calmamente... pausadamente... demoradamente.

Afastou-se do espelho, encheu um copo de rum - sem gelo - e ligou o rádio.

Maysa:

"Meu mundo caiu
e me fez ficar assim..."

Voltou para o espelho.

Engoliu 1/2 copo do rum.

E se ateve à música.

Cantarolou e 1/2 meio que dançou.

"Você conseguiu..."

Parou.

Desceu as mãos até o ventre.

Enfiou os dedos nos pelos púbicos - pretos, fartos... encaracolados.

Massageou-os com os olhos fechados.

Correu vagarosamente a mão direita para o meio das pernas.

Maysa:

"E agora diz que tem pena de mim..."

E com o dedo 1/2 curvo - fundo - pensou desesperadamente em Lízio Eduardo, aquele filho da puta sem-vergonha.

E teve o primeiro orgasmo, o que antecedeu aos outros 143.

Engoliu a outra metade do rum e se encolheu quietinha.

Ficou ali em posição fetal... com a mão no 1/2 das pernas.

Sofrendo!

E Maysa:

"Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar..."

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Lembranças

Hoje estive pensando nas pessoas que conheci e que foram caindo pelo caminho durante estes últimos 50 anos.

No andamento da vida, na beleza e da tristeza que ela é, e por não estarmos preparados jamais para o seu fluxo natural e constante.

Para o seu fechamento inevitável, o the end... o final da história.

Minha cabeça se povoou de gente conhecida, gente com quem convivi, gente que sempre me vem à memória em algum momento.

Como hoje, quando acordei ouvindo a música Perfídia que, por algum motivo, mergulhou minha cabeça nas recordações.

Minha Avó Maria, Meu Avô Narciso, Tio João, Tio Zé, Tio João, Tio Luiz, Tia Dila, Tia Maria, Seu Procópio, Anésio, Seu Lúcio, Seu Pedro do Banco, Seu Juca, Dona Ana, Carlinhos Marangoni, Marinho Teixeira, Márcia, Bidoginho, Rogério, D. Jandira, Miltinho, Toninho Beija-Flor, Totonho, Berto Mazeti, Dito Bônis, Bola, Marquinho Rola, Sá Norica, Alcindo, Tião, Meu avô José Domingos, Tio Vlademir, Tia Amélia, Tia Ana, Besita, Meu Pai, Anibal, Fernandão, Dinei, Gatão, Didico, Zé de Alcântara, Glória, Valdir de Alcântara, Dedé, Sofia, Toninho Cândido, Dona Ana Paleta, Cris, Ezequiel, Laurinho, Adriano, Alexandre, Josenildo, Dr. Batalha, Seu Euzébio, Jorge, Valdioni, Lourenço, e muitos outros que eu esqueci.

Histórias e histórias esquecidas.

Um enorme conhecimento desaparecido.

Segredos que nunca serão revelados.

Olhos que nunca mais olharão.

Bocas que jamais falarão.

Ouvidos que jamais ouvirão.

Sonhos que jamais serão sonhados.

Gente que passou... que deixou alguma coisa invisível no ambiente em que viveu.

Que deixou alguma presença no rosto dos filhos, uma árvore plantada, um poema escrito... um momento fantástico... uma mágoa... uma saudade doída... ou não deixou nada.

Gente que se foi nos últimos 50 anos.

Hoje eu pensei neles.

E senti que a minha vida está impregnada de coisas deles... de coisas que aprendi com eles... de lembranças de coisas que vivenciei com eles.

Independente de terem sido parentes, amigos do peito ou pessoas com quem convivi circunstancialmente e que, às vezes, nem gostava muito.

É triste, as pessoas não gostam muito de lembrar nem falar destas coisas.

As pessoas querem esquecer os seus mortos... para deixar de sofrer.

Mas tive necessidade de falar... pra ficar em paz com as memórias dos meus últimos 50 anos.

E ver se conseguia conter o sentimento doído que tinha se apossado de mim.

Melhorou, mas não passou!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dores de amor

É lei: macho lava a honra com sangue!

Miguelinho, desde criança, vivenciou isto, porque o pai, Miguelão - na sua frente - enfiou a faca na garganta da mãe, Cletilda, porque ela chamou-lhe frouxo.

Miguelinho cresceu assim: dividido entre a macheza do pai e a ausência da mãe que, pela voz do pai - em cana - sempre foi uma vaca, uma depravada, uma filha da puta, uma vadia mal-agradecida e desalmada.

Ouvia estas merdas e, ainda por cima, bebia umas cachaças... quase sempre o dia inteiro.

Desocupado, o maior trabalho era vigiar Vandilsa - prima - que ele, na escala dos relacionamentos humanos - de parentes - classificou como 'sua'.

Vandilsa não sabia, mas lhe pertencia.

Ele a vigiava de longe: sabia seus horários, seus hábitos, sabia a cor dos cabelos, do sapato, do lenço, do batom, do vestido e, às vezes, a cor da calcinha.

Sabia a que horas ela levantava, a cor da camisola, o que comia no café da manhã, o que comia no almoço, qual novela, qual música, qual livro, qual vestido, como passava o dia... quantas vezes respirava por minuto.

Se ocupava com isto se alimentado do salário mínino que a avó, Anilda, recebia do INSS.

Se entrincheirava na praça, de manhã, na frente da casa de Vandilsa e fazia, mentalmente, o relatório do dia.

06:45: escola, com a amiga Lísia.
09:30: recreio, uma coxinha no boteco do Zélio.
12:00: chegava em casa, jogava a bolsa no sofá.
12:30: almoço, sempre com suco de laranja.
14:00: saída, para estudar com Lísia.
16:00: retorno para casa, banho.
17:00: televisão, resto de sessão da tarde.
19:00: jantar, sempre com uma saladinha de alface.
20:00: Jornal Nacional.
21:00: novela, sempre na Globo.
22:30: cama, com a camisolinha branca.
05:30: fora da cama, banho.
06:00: café da manhã, sempre uma bolachinha de chocolate.
06:45: escola, com a amiga Lísia.

Aparência: cabelo liso - loiro; um brinco de pérola - pequeno; uma miniblusa verde - indecente; o umbiguinho de fora - lindo; uma sainha jeans - minúscula; uma calcinha vermelha - ínfima (às vezes se via); uma sandalhinha da Xuxa - azul... um jeitinho de sem-vergonha - piranha mesmo - estampado no rosto.

E descia a rua.

Miguelinho acompanhava de longe.

Isto já rolava há 07 anos, sigilo absoluto; nem o maior do maior do maior dos amigos sonhava tal obsessão.

Uma boca de noite, Miguelinho, desta vez sem estar de guarda, vinha descendo a rua e deu de cara com Vandilsa entrando num carro preto - Celta.

O cabelo liso - loiro; o brinco de pérola - pequeno; a miniblusa verde - indecente; o umbiguinho de fora - lindo; a sainha jeans - minúscula; a calcinha vermelha - ínfima; a sandalhinha da Xuxa - azul... uma jeitinho de sem-vergonha - piranha mesmo - estampado no rosto.

Bambeou as pernas, sentiu um troço na cabeça, e saiu correndo atrás do carro.

15 minutos depois, parou.

Vandilsa sumira no escuro da noite.

Tontura, arrepio, pernas moles, angústia, desespero, dor, agonia, infelicidade, tristeza, ansiedade, caralho, porra, filho da puta, cê me paga, cadela, vadia, corno, bandido, sem-vergonha, isto não fica assim, eu mato, arrebento, ninguém mexe com mulher minha, safada, vaca, ordinária, vagabunda... puta!

E não foi pra casa esta noite.

Fincou pé na praça, frente da casa de Vandilsa - a faca na cintura.

Não viu quando o carro preto - Celta - chegou, porque cochilava.

Nem quando ele partiu deixando Vandilsa depois de um longo e demorado amasso no banco de trás do carro.

Acordou, sem saber onde estava, com a janela do quarto de Vandilsa ainda iluminada.

Olhou o relógio: 04:23 da manhã.

Levantou-se - nada mais a fazer - caminhou pela rua e sentiu na pele o que é a dor do ciúme, a dor de corno, a dor de macho desprezado... a dor do amor.

A faca cutucava o estômago, o coração, o fígado, o pâncreas, o baço, os rins... a alma.

Pensou no pai que lavara a honra com muito sangue.

O estômago embrulhou.

Em casa, vomitou até as tripas - como se diz na gíria.

- Vandilsa flutuava dentro da sua cabeça com a agônica sainha jeans - meu Deus!, o angustiante umbiguinho lindo - meu Deus!, a sua cara de vaca, depravada, filha da puta, vadia mal-agradecida... e desalmada!

Sentiu-se frouxo, sem ninguém para chamá-lo disto.

E pela primeira vez ficou pensando se sua mãe não tinha razão em relação ao seu pai.

Deitou-se, enfiou o dedão na boca, colocou-se em posição fetal e choramingou baixinho a ausência da mãe.

E não dormiu!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Fatalismo

Gente com menos de 30 anos não vai entender o que vou dizer.

Os com mais de 30 não vão concordar.

Os comunistas vão odiar.

É o seguinte: eu acredito em fatalismo.

Não vou explicar o que é, procure no dicionário ou na internet.

Não tenho dúvidas que a vida de cada personagem já está escrita.

Tanto quanto o histórico político de um país/grupo/tribo.

Assim, simples!

Politicamente posso dizer o seguinte: se um grupo agisse assim, aconteceria isto; se agisse assado, aconteceria aquilo.

Então, a história se faz.

Não tem como mudar, as atitudes foram tomadas.

Era pra ser assim e pronto!

Pessoal: a mesma coisa.

Se eu tivesse ido ao médico na terça talvez não tivesse morrido na quarta.

Não tem como mudar o eu não ter ido ao médico.

Era o meu destino, sina.

Todos nós com mais de 30 um dia iremos ao médico - acontece com qualquer idade, só que em menor escala - e receberemos a notícia.

Você ó: top! top! top!

Não tem como evitar isso.

Indo ou não ao médico a maneira como você vai se foder já está agendada.

Porque, lá na frente, não tem como você dizer: ah, se eu estivesse cuidando da minha saúde!

Não era pra você cuidar e pronto!

Não há como controlar o destino.

Não há como mudar o jeito que você vai morrer.

As mudanças no destino dos povos eram pra ser da maneira que aconteceram.

Uma coisa leva a outra.

Uma ação gerar uma reação é tudo absolutamente normal.

A vida como ela é sempre vai ser assim.

Tá escrito e pronto!